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Bastidores da cirurgia

Do cinzel e martelo ao planejamento digital: como a cirurgia ortognática amadureceu

A distância entre a maxila treinada em crânio seco e o planejamento 3D de hoje conta a história de uma especialidade que virou previsível.

Agosto de 2026 · 7 min de leitura


Um grupo de cirurgiões compra facas de prata de restaurante, daquelas de mesa, e leva para transformar em cinzel. Era esse o instrumento que abria uma maxila na São Paulo dos anos 80, numa época em que a cirurgia ortognática mal existia no Brasil. A primeira maxila que o Dr. Marcos Pitta operou não foi num paciente. Foi num crânio seco, treinando o movimento antes de tentar em gente de verdade.

Essa cena tem menos de quarenta anos. Ela ajuda a responder uma pergunta que talvez esteja passando pela sua cabeça agora, se você chegou até aqui com receio de fazer uma cirurgia grande no rosto. A pergunta é: em que ponto essa especialidade está hoje. E a resposta fica muito mais tranquilizadora quando você entende de onde ela veio.

Antes de voltar para a loja de facas, uma explicação rápida. A cirurgia ortognática corrige a posição dos ossos que sustentam os seus dentes e formam o seu rosto. Esses ossos são dois: a maxila, o osso de cima, e a mandíbula, o osso de baixo, que se mexe quando você fala e mastiga. Quando eles não se encaixam bem, a mordida não fecha e o rosto perde harmonia. Uma cirurgia que mexe em um osso só, em geral a mandíbula, é chamada de monomaxilar. Quando mexe nos dois, é bimaxilar. Guarde essa diferença, porque parte da história vem daí.

quando a ortognática era feita no cinzel e martelo

Até os anos 90, a bucomaxilo no Brasil era quase toda voltada para trauma, para consertar fraturas de face em acidentes. A ortognática era rudimentar e feita por pouquíssimos centros. Quem quisesse aprender de verdade tinha que buscar conhecimento fora, porque aqui quase ninguém dominava a técnica e quase ninguém queria ensinar. O Dr. Marcos Pitta, cirurgião bucomaxilofacial há mais de trinta anos e formado em 1987, viveu esse começo. Ele foi mentor do Dr. Matheus Dib e conta a época sem romantizar nada.

Eu fazia ortognática no cinzel e martelo. A gente comprou faca de prata de restaurante para transformar em cinzel. A primeira maxila que eu fiz, a gente fez no crânio seco.

Dr. Marcos Pitta

Coloque o cronômetro nessa época. Uma única cirurgia levava de cinco a seis horas. A maioria dos casos era monomaxilar, só a mandíbula, porque operar os dois ossos com aquele instrumental era território pouco explorado. O planejamento era feito à mão, com desenhos e modelos de gesso montados de um jeito que o próprio Dr. Pitta descreve como rudimentar. Sem tomografia tridimensional, sem software, sem simulação. O cirurgião estudava nos livros, imaginava o movimento e descobria boa parte do resultado durante a operação.

Repare no contraste com o que assusta o paciente de hoje. O medo costuma ser de uma cirurgia grande, feita meio no escuro. Pois esse escuro era literalmente a realidade da especialidade há quarenta anos. O que mudou não foi só o instrumento. Mudou a capacidade de enxergar o caso inteiro antes de encostar no paciente.

a viagem que mudou a cirurgia ortognática brasileira

Em 1996, o Dr. Pitta foi para Dallas fazer um estágio na Baylor University. A ideia era ficar trinta dias. Ele ficou seis meses. Virou fellow do Dr. Larry Wolford, uma referência mundial da área, e passou a operar todos os dias ao lado dele.

Lá ele aprendeu uma filosofia que gera debate até hoje: começar a cirurgia pela mandíbula, e não pela maxila. Aqui é preciso ser honesto. A ordem em que se operam os ossos é uma escolha de escola, um debate legítimo entre cirurgiões sérios, e não uma técnica certa contra uma técnica errada. Cada abordagem tem seus fundamentos. Quando o Dr. Pitta trouxe essa filosofia para o Brasil, encontrou resistência pesada, e nos congressos precisou defender ponto por ponto uma forma de trabalhar que quase ninguém conhecia por aqui.

Só que a viagem não formou apenas a técnica. O Dr. Pitta faz questão de dizer que aprendeu com o Dr. Wolford o trato com o paciente, a forma de ouvir, a humildade, a educação. Isso não é detalhe decorativo. Um cirurgião que sabe ouvir entende melhor o que você espera do seu rosto, e planeja pensando em você, não numa média de casos. Esse cuidado atravessa toda a evolução da especialidade e chega direto na consulta que você faz hoje.

por que a técnica evoluiu sem trair o resultado

De lá para cá, a ortognática ganhou muita coisa. Você provavelmente já ouviu falar em técnica minimamente invasiva, aquela que trabalha com cortes menores e uma proposta de recuperação mais tranquila. O Dr. Pitta reconhece o valor dela, mas coloca um limite claro: uma técnica nova só sobrevive se entregar resultado bonito. Se não entregar, ela morre, por mais moderna que pareça. O objetivo real de qualquer avanço não é vender novidade, é fazer você passar melhor pelo pós-operatório, seja pela técnica em si, seja por protocolos de recuperação que ajudam nesse caminho.

E aqui cabe desmontar um medo específico, porque ele circula muito e não é verdade. Aquela ideia de que depois da cirurgia o paciente nunca mais vai sorrir direito é um mito. Não é isso que acontece. Tanto o Dr. Pitta quanto o Dr. Matheus são diretos nesse ponto: um bom resultado inclui você sorrindo bem, com função e com o rosto harmonioso. Um resultado que estraga o sorriso simplesmente não é aceitável, e ninguém sério trabalha assim. O Dr. Pitta resume o que considera um caso bem-sucedido numa frase que serve de régua para o paciente medir qualquer proposta.

O caso tem que ter sucesso, tem que estar estável, tem que ter função e tem que estar bonito.

Dr. Marcos Pitta

Leia com calma, porque tem muita coisa dentro. Sucesso é o problema corrigido. Estável é o resultado que não volta atrás com o tempo. Função é você mastigar e falar bem. Bonito é a harmonia do rosto. Os quatro juntos, não um só. É essa exigência, e não a moda da técnica, que define um bom trabalho. Como ele mesmo diz, não é a técnica que vai mudar, continua sendo o resultado.

Existe ainda um detalhe que o paciente raramente considera, e que o Dr. Pitta trata como inegociável na experiência dele: a mesma equipe operando junto por muitos anos. O mesmo anestesista, a mesma instrumentadora, os mesmos cirurgiões parceiros. Ele trabalha com o mesmo anestesista há mais de duas décadas e com cirurgiões parceiros há quinze e vinte e cinco anos. Na vivência dele, esse entrosamento se traduz em tecidos manipulados com mais delicadeza e pacientes que acordam da cirurgia com menos edema, menos inchaço. Isso é a experiência de um cirurgião, não uma redução garantida de complicações. Mas a lógica é intuitiva: uma sala em que todo mundo já sabe o próximo passo do outro tende a ser uma sala mais previsível. E previsibilidade, para quem tem medo de cirurgia, é exatamente o que acalma.

o que o planejamento digital permite avaliar antes de você operar

Agora feche o círculo com a cena do começo. Quarenta anos atrás, o cirurgião abria a maxila com um cinzel improvisado, depois de treinar num crânio seco, numa cirurgia de cinco a seis horas planejada quase toda à mão. Hoje o ponto de partida é outro.

O planejamento digital 3D é um estudo do seu rosto em três dimensões, feito a partir de uma tomografia. Ele reconstrói o seu esqueleto facial dentro de um software, com maxila, mandíbula e a relação entre os dois ossos vistos por todos os ângulos. O que antes o cirurgião só descobria durante a operação, agora ele avalia antes, na tela, com você ainda na fase de estudo. O Dr. Pitta considera o planejamento a arma de tudo.

Na prática, isso quer dizer que dá para medir o quanto cada osso precisa se mover e em qual direção. Dá para enxergar como a maxila e a mandíbula vão se encaixar depois do reposicionamento. Dá para prever o movimento com uma precisão que o cinzel e martelo jamais permitiu, e para levar esse plano estudado para dentro do centro cirúrgico, em vez de improvisar.

É aqui que o seu medo perde força. A cirurgia ortognática deixou de ser um salto no escuro e virou um procedimento estudado, medido e planejado antes de começar. O porte da cirurgia continua existindo, é uma cirurgia de verdade, e nenhum texto honesto vai prometer prazo de recuperação para o seu caso, porque cada rosto tem a sua complexidade. O que a história mostra, do crânio seco ao 3D, é que a incerteza que assustava há quarenta anos é justamente o que a especialidade passou décadas aprendendo a eliminar. E é isso que uma boa avaliação coloca na mesa para você: o seu caso desenhado, entendido e conversado antes de qualquer decisão.

Este conteúdo nasceu de uma conversa no canal do Dr. Matheus Dib com o cirurgião Dr. Marcos Pitta. Assista na íntegra:

Perguntas frequentes

A cirurgia ortognática ainda é feita "no cinzel e martelo" como antigamente?+

Não. Aquele cenário descrito pelo Dr. Marcos Pitta, com instrumentos improvisados e planejamento feito à mão, é a história dos anos 80 e 90, quando a especialidade estava começando no Brasil. Hoje a cirurgia parte de um planejamento digital em três dimensões, com o rosto estudado por software antes da operação.

O que é o planejamento digital 3D e por que ele importa para quem tem medo da cirurgia?+

É a reconstrução do seu esqueleto facial num software, a partir de uma tomografia, que permite medir e prever o movimento de cada osso antes de operar. Ele importa porque troca a incerteza pela previsibilidade. O que antes só se descobria durante a cirurgia passa a ser avaliado antes, na tela, o que reduz a sensação de "cirurgia no escuro".

A técnica minimamente invasiva garante que eu vou me recuperar rápido?+

A técnica minimamente invasiva é uma informação real e tem seu valor, mas não é uma garantia de prazo de recuperação. Como diz o Dr. Pitta, o que não muda é a exigência de um bom resultado. O objetivo de qualquer avanço é um pós-operatório melhor, sempre conforme o seu caso, avaliado individualmente.

Começar a cirurgia pela mandíbula é a técnica correta?+

É uma filosofia, não uma regra única. A ordem em que se operam os ossos é um debate legítimo entre escolas de cirurgia bucomaxilofacial. O Dr. Marcos Pitta aprendeu e defende a abordagem de começar pela mandíbula, trazida da Baylor University, mas isso é uma escolha fundamentada, e não uma técnica certa contra as outras.

O primeiro passo é uma conversa.

Cada caso é único. Agende uma avaliação para entender, com calma, o melhor caminho para o seu.